segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Providence 09 - Extras

Olá, senhoras e senhores. De volta com mais uma seção de comentários e extras cheia de SPOILERS até dizer chega. Assim sendo, só leia o restante desta postagem após a leitura de Providence 09, ok? Outra coisa, galera: coisas que eu já referenciei eu nem vou mais mencionar. Qualquer dúvida pergunte nos comentários que a gente dá um jeito. Boa leitura!



CAPAS VARIANTES:

A capa Weird Pulp que vemos acima encabeçando esta postagem é uma incógnita para mim. Pode tanto estar representando Charles Dexter Ward reconstituindo um corpo a partir das cinzas ou "sais essenciais", quanto pode representar Curwen/Colwen trazendo alguém de volta dos mortos. Opiniões?


A capa Women of HPL gerou um monte de discussões e teorias sobre quem seria a distinta senhora aqui ilustrada. Enfim, sem fazer suspense, Jacen Burrows confirmou que é Susie Phillips, a mãe de HPL, que vimos aqui em Providence 09.
O ilustre aí acima na capa Portrait é ninguém menos que Etienne Roulet, o sujeito que trouxe o Livro da Sabedoria das Estrelas para o Ocidente (o Alfarrábio de Hali, em sua tradução para o inglês,  que vemos em sua mão aí acima). De quem seriam essas lápides? Ah, meus caros, com o histórico desse fulano aí pode ser um monte de gente.

Essa cena da capa Dreamscape é uma referência a A Busca Pela Desconhecida Kadath, em especial uma passagem perto do fim do conto que não vou narrar aqui.


Essa entidade simpática parece ser Yig, o Pai das Serpentes, que aparece em "A Maldição de Yig", conto de HPL em parceria com Zealia Bishop.

CAPA REGULAR:
Essa casa aconchegante é "A Casa Abandonada" (The Shunned House) que serviu de inspiração para o conto de HPL. Localizava-se no número 135 da Rua Benefit e aparece brevemente nesta edição.


Página 03

Vemos sob o ponto de vista de Black. O local é o interior de um trem na Union Station em Providence, RI e a data é 14 de Novembro de 1919.

No segundo painel vemos que a maioria das árvores está desfolhada, o que aponta o fim do outono ou o começo do inverno. Esse local é o cruzamento da Rua Waterman com a Rua Benefit, numa perspectiva de quem olha para o leste.

Somos apresentados a Henry Annesley, mencionado pela primeira vez em Providence 07. Ele é o análogo de Crawford Tillinghast em "Do Além", de HPL. Segundo a "An H. P. Lovecraft Encyclopedia", no primeiro esboço desse conto o nome do protagonista era Henry Annesley.

O local aqui é a Rua George com a Rua Brown, voltados para o leste.

Annesley usa um par óculos coloridos e com armação bem fora de moda para a época.

"Como Providence está te tratando até aqui?" — Uma pergunta com várias nuances ocultas. Vejamos:
  • "Como Providence (a cidade) está te (Black) tratando até aqui?": o sentido literal, fácil de ser captado;
  • "Como Providence (o conceito filosófico da 'Providência', 'desígnio divino'...) está te (Black) tratando até aqui?": Irônico, já que Black não acredita na Providência, ainda que esta seja claramente verdadeira dentro de seu mundo;
  • "Como Providence (a HQ de Alan Moore) está te (Black) tratando até aqui?": Pelo que vimos até agora, Moore gosta de sacanear um monte com nosso pobre protagonista;
  • "Como Providence (esta HQ) está te (Você mesmo, biduzão! O leitor!) tratando até aqui?": Considerando o enquadramento, Annesley poderia muito bem estar dirigindo a pergunta a vocês mesmos, já que vocês leram 2/3 dela e com esta edição nos encaminhamos no terceiro e último ato.

Página 04

A tonalidade de cores mostra o mundo pelas lentes de Anneley. Esta é uma referência a "Do Além", onde o cientista Crawford Tillinghast constrói um ressonador que amplia as percepções humanas ao ponto de que eles podem perceber criaturas estranhas e de outras dimensões.

A aparência das criaturas casam com o conto de HPL mas também parecem ser uma homenagem ao filme inspirado por esse conto, Do Além, de 1986, feito pela mesma galera que produziu outra tosqueira clássica chamada Re-Animator! YES! Abaixo, uma imagem extraída do filme, mostrando alguns dos seres citados:
 
O nome do episódio, "Forasteiros", é uma referência ao famoso conto de HPL "O Fosrasteiro". Vários especialistas, como Michel Houellebecq, caracterizaram o próprio HPL como sendo ele mesmo um forasteiro entre os seus conterrâneos. Moore, contudo, postulou justamente o oposto em sua introdução para o The New Annotated Lovecraft, de Leslie Klinger. O fato de o título estar no plural deve-se aos muitos forasteiros neste capítulo: Black, HPL, Susie Lovecraft, Annesley, Charles e, em um sentido diferente de "forasteiro", mais literal, as criaturas vistas no espectro púrpura.

Aqui eles estão na  Rua George com vista para a Rua Magee. A Universidade Brown está à direita. O prédio à direita de Black é o Rhode Island Hall.


Página 05

Etienne Roulet e Japheth Colwen foram mencionados pela primeira vez em Providence 02. Foram dois dos três criadores da Venerável Ordem da Stella Sapiente. Releiam os panfletos de Suydam na edição 02 para uma descrição mais acurada.

De acordo com os registros da Universidade Brown o "1812" que vemos na cerca refere-se às classes que doaram para a instalação da cerca.

Toda essa coisa de luz violeta e tal refere-se ao espectro ultravioleta que, normalmente, é invisível para os sentidos humanos. No link da wiki explica bem direitinho o que são os diferentes tipos de luzes violetas. Tudo isso é também referência a "Do Além". Aliás, recomendo como um dos melhores contos do mestre.

"O pior tipo de lixo endogâmico." — Isso refere-se, para quem não lembra, ao fato dos filhos/netos de Garland Wheatley terem sido gerados por meio de incesto com sua filha, Leticia.

"(...) o projeto do Boggs estava saindo de controle." — A referência é presumivelmente à "praga" que devastou Salem, sugerindo que na verdade teria sido um massacre promovido pelos Abissais (Deep Ones).

Shadrach Annesley foi apresentado a Black na #03.

Aqui eles estão na Rua Benevolent olhando para oeste, em direção à Rua Brown.
"Então meu tatara... hã, meu tio ainda está conosco?" — Confirma o parentesco entre Henry e Shadrach, sugerindo que na verdade essa descendência seja direta, como um tataravô, em vez de ser um tio-avô distante. Isso é bem possível já que Shadrach tem possivelmente mais de 250 anos.

"Nós, hã... ouvimos falar que houve um acidente. Um relâmpago ou algo assim." — Em "A Estampa da Casa Maldita", de HPL, que é o conto de onde Moore tirou a história de Shadrach Annesley, acontece esse incidente. Dado que isso também aconteceu com a falecida esposa de Garland Wheatley (e que ficou implícito que a ordem teve os meios para atrair o objeto que veio do espaço), presume-se que esse acidente com Shadrach talvez não tenha sido acidental, se é que me fiz entender.

"Ele sempre foi um homem com um tremendo apetite pela vida." — Alusão a Shadrach Annesley ser um canibal. Lembrem-se que a "dieta" é um dos meios de prolongar a vida ensinados no Kitab.

A casa de Annesley fica na Rua Benevolent, número 22. Em "Do Além" a casa é descrita dessa forma e nesse endereço.


Página 06

"(...) a casa dos Babbit na Rua Benefit (...)" — é a casa que inspirou o poema de HPL "A Casa" e o conto "A Casa Abandonada".

"O oculto é aquilo que está escondido. Através de nossa ciência esperamos revelá-la. " — Uma reminiscência da ficção de HPL. Suas histórias iniciais eram marcadas por uma dependência maior do oculto (que em línguas latinas pode ter os significado de "escondido"), mas à medida que amadureceu focou mais na ficção científica ainda que nunca se rendendo a um lado somente. Uma das marcas da ficção científica é justamente a de ocupar as áreas cinzentas entre os gêneros mais bem definidos de fantasia e ficção.


Página 07

"Eu, hã... perdi um ente querido recentemente." — Black está se referindo a Lily, que se suicidou na primeira edição.

"Garland Wheatley ficou obcecado por ela." — A Profecia do Redentor prevê que um Redentor virá para acertar as coisas como relatado no Alfarrábio de Hali. Ao que parece, Howard Phillips Lovecraft é o Redentor, então aqui Annesley está minimizando a profecia com o propósito obscuro de levar Black em outra direção. Wheatley tentou cumprir a profecia à sua maneira "caseira", mas a Stella Sapiente tinha outras ideias e planos de como essa profecia deveria ser cumprida.

"Sim, é esse senso de que há mais do que tudo que eu percebo, como se eu não estivesse vendo todo o panorama." — é irônico dado o ponto de vista de Annesley do mundo invisível ao redor de Black, mas também seja talvez uma sugestão de que Black saiba que perdeu uma boa quantidade do subtexto das coisas em suas jornadas até aqui.

"Meu próprio campo envolve óptica e metafísica." — Isso lembra o velho provérbio que diz que os olhos são as janelas da alma.

"Com nossa visão de tempo, de certo modo já foi cumprida." — A própria visão de Moore sobre o tempo ser como um sólido quadridimensional já foi vista tanto em Neonomicon quanto aqui mesmo em Providence, na segunda edição, quando tratamos mais especificamente deste tema. Em "Do Além" Tillinghast faz referência ao tempo não linear quando há uma discussão entre os protagonistas e um deles pergunta para o outro se ele acha que existem coisas como tempo ou magnitude. Leiam "Do Além"!


Página 08

"(...) um posto dentro de nossa ordem, como um Cobridor Externo na Maçonaria. Só campônios levam isso ao pé da letra." — Certo... primeiro: Não sou conhecedor dos ritos maçônicos e o pouco que sei é que há variações nos ritos de diferentes vertentes da maçonaria; assim, o tal "cobridor externo", no original "Tyler", é um posto na hierarquia maçônica cuja função é fazer a guarda externa da loja maçônica durante as sessões, encontros ou seja lá como se chamem as reuniões deles. Segundo: dependendo do rito maçônico essa nomenclatura pode ser diferente; vi o mesmo posto ser chamado de "guarda externo", "telhador", entre outros. Vocês podem encontrar mais sobre isso AQUI. Terceiro: a menção a campônios é uma alusão clara a Garland Wheatley. Acho que encontramos um dos que meteram o pé na bunda do velho Garland...

"Em 1889 houve um casamento arranjado (...)" — Esse casamento, pelo que deduzimos da leitura desta edição, foi o de Winfield Lovecraft e Susan Phillips em 12 de Junho de 1889.

"Monarcas europeus fazem isso o tempo todo." — A Monarquia enquanto instituição entrou em declínio depois da Primeira Guerra Mundial, mas casamentos arranjados eram historicamente comuns.

"A filha de nosso líder da Ordem" se refere a Susan Phillips, filha de Whipple Van Buren Phillips (de quem já tratamos em edições anteriores). Ele teve três filhas, sendo Susan uma delas.

"Um membro noviço cujo trabalho envolvia metais." — Esse é obviamente Winfield Scott Lovecraft, que trabalhava meio como caixeiro-viajante para a Gorham Silver Company. Ele apareceu antes em um flashback (#05) e na foto da Stella Sapiente (#06 e 07), onde falamos mais desse cara...

"Felizmente eles deram cria quase que imediatamente." — Isso se refere a HPL ter nascido em 20 de Agosto de 1890, o que colocaria sua concepção como tendo ocorrido entre 8 e 10 semanas após o casamento dos pais. O tom usado por Annesley é propositalmente rude, quase como se fosse um fazendeiro falando de vacas e novilhos, uma vez que para os altos membros da Ordem aquele casamento e a "cria" deles eram tão somente um experimento.

"Soa quase... enfadonho." — Isso faz o leitor se perguntar se Annesley está enchendo a cabeça de Black com meias-verdades. Aqui temos outra nuance... qual seria a verdade então? As amarguradas e fantasticamente sombrias histórias dos quase primitivos Boggs e Wheatley, ou a versão mundana e prosaica de Annesley? O contraste aparenta ser deliberado, ecoando a transição de HPL da fantasia para a ficção científica.

"(...) mas em 1889 tínhamos outras edições." — Sugere que a Ordem tinha traduções melhores ou mais completas, ou quem sabe edições originais, ecoando as supostas muitas edições do Necronomicon em várias edições expurgadas e línguas estrangeiras.

"Sempre gozamos de uma relação próxima com a igreja católica." — Taí uma coisa bem "teoria da conspiração"... a Igreja Católica sempre foi tradicionalmente avessa a algumas organizações fraternais como a Maçonaria. Por outro lado, há quem diga que o alto escalão do Catolicismo mantém algumas alianças conspiratórias bem sombrias. Fica a gosto do leitor.

Notem a gravatinha verde de Howard Charles, o análogo de Providence para Charles Dexter Ward, do conto "O Caso de Charles Dexter Ward". Como tratamos nas primeiras edições, essa gravata verde sugere um sinal velado de homossexualidade comum na época.


Página 09

Essa suposta "descendência direta de Japheth Colwen" encontra paralelo em "O Caso de Charles Dexter Ward", onde Ward era um descendente direto de Joseph Curwen. Assim, a Stella Sapiente seria o começo natural para uma pesquisa genealógica neste caso. Cabe ressaltar algo que me ocorreu: e se Howard Charles for não um descendente mas o próprio Japheth Colwen, mudando de identidade durante os séculos para passar despercebido? É uma possibilidade a ser considerada.

O verme segmentado se movendo "invisivelmente" através das virilhas de Black e Charles sugere a atração homossexual que fica implícita no subtexto entre os dois.

Aquele detalhe de tirar um suposto "fiapo" da roupa de Charles foi deliberado. Isso às vezes é usado para observar a reação do "alvo" a uma proximidade física e, claro, preparando o terreno para um flerte mais descarado. Na primeira edição Black comenta no seu diário/livro de banalidades que Prissy Turner fazia a mesma coisa com ele... e todos percebemos que ela estava latindo para a árvore errada.

Talvez haja um bom motivo para Moore ter batizado o rapaz como Howard também... mas eu ainda não cheguei a uma conclusão mais firme.

De fato existe mesmo uma antiga igreja católica de São João em Providence. Ela serviu de inspiração para a que aparece em "O Habitante da Escuridão" (ou "das Trevas" dependendo de qual tradução você encontrar por aí. No original, "The Haunter of the Dark").


Página 10


"(...) mas você parece um pouco com as xilogravuras de Colwen que eu vi." — Refere-se à imagem de Colwen no panfleto de Suydam (#02). Em "O Caso de Charles Dexter Ward" o protagonista ostentava uma forte semelhança com um retrato de seu ancestral.

"Tive uma infância super protegida. Mal saí de Rhode Island na minha vida." — Muitos críticos apontam que Ward foi baseado em grande parte no próprio HPL, daí a provável escolha de Moore por "batizar" o jovem mancebo de Howard, o mesmo nome de HPL.

"Eu sei que ele se mudou para Providence na época da caça às bruxas..." — Esse é outro detalhe emprestado de "O Caso de Charles Dexter Ward":
Joseph Curwen, segundo revelaram as vagas lendas ouvidas ou descobertas por Ward, era um indivíduo extremamente assombroso, enigmático, sombriamente horrível. Ele fugira de Salem para Providence — o abrigo universal dos excêntricos, dos homens livres e dos dissidentes — no início do grande pânico da bruxaria, temendo ser acusado por causa de seus hábitos solitários e de suas curiosas experiências químicas e alquimistas.
"Bem, como um cientista... ou alquimista... ele seria suspeito." — A prática protocientífica da alquimia eventualmente se desenvolveu na disciplina científica da química; apresentar a alquimia como uma ciência mal compreendida reflete como HPL combinou ocultismo com ficção científica... ou como posteriormente Arthur C. Clarke depois colocaria: "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia."

"E-ele trabalhou com Jacques Roulet (...)" — Talvez seja um erro, uma vez que o que sabemos e que foi Etienne Roulet quem trabalhou com Colwen. O erro pode ser do Moore, mas pode ser que Charles tenha se equivocado já que ele só descobriu algumas dessas informações recentemente. Ou pode ser um despiste proposital, uma simulação de erro para tornar mais convincente se Howard Charles for mesmo Japheth Colwen como suspeito.

A família de Lovecraft viveu na "Casa Babbitt" por um curto período, no início de 1919.


Página 11

A Rua Lamb não existe mais na Providence de hoje. Pelo mapa de Providence que vemos em todas as edições, e que nesta edição vemos por inteiro, é possível deduzir que ficava a leste da Rua Benefit, entre a Rua Church e a Rua Star.

O Mosshassuck é um rio que corre paralelo à Rua Benefit, algumas quadras a oeste.

A "Escola Moses Brown" é um cursinho preparatório particular em Providence.

Uma observação pertinente para o momento: espero que na tradução não tenha se perdido em demasia o tom de flerte nas falas de Black.

Em consonância com o que disse na edição passada, Black reitera que não foi aprovado nos exames médicos, e por isso foi rejeitado pelas forças armadas para servir na Primeira Guerra Mundial


Página 12


St. John's Church. Image via Flickr user Will Hart

Acima temos uma das últimas fotografias recentes da Igreja de São João, encontrada no Flickr de Will Hart. Hoje em dia ela não existe mais. Foi demolida e no seu lugar há um parque.

Em "O Habitante da Escuridão" o culto análogo à Stella Sapiente também usa o campanário de uma Igreja.

"Direto até a fundação bíblica da igreja, ele diz (...)" — Há uma possibilidade de isso se referir à Profecia do Redentor como uma analogia do Messias Cristão, como dito nos evangelhos do Novo Testamento e a pessoa de Jesus Cristo. Críticos, em particular Donald Burleson em Disturbing the Universe e Robert M. Price notaram paralelos ente "O Horror de Dunwich" e a concepção, vida e morte de Jesus (de forma deliberada, já que "O Horror de Dunwich" foi em parte baseado em "O Grande Deus Pã", de Arthur Machen). Moore também traçou um paralelo entre os eventos de Neonomicon e a Anunciação de Maria.

"(...)mas suponho que seja como os maçons alegando origens antigas." — Eles asseveram que sua ordem provém do tempo da construção do Primeiro Templo de Jerusalém.

O detalhe de entrarem por uma falha na cerca é idêntico ao que acontece em "O Habitante da Escuridão".


Página 13

"Vocês não podiam só se abraçar apertados ou algo assim?" — Black está provocando na maior cara de pau mesmo, né?

Outra coisa absolutamente copiada de "O Habitante da Escuridão" é o fato de haver um repositório de livros e artefatos ocultistas meio que abandonados no campanário da Igreja.

"Ele disse que este cômodo era para o cabeça oculto da Stella Sapiente. O seu chefe secreto." — Em geral organizações fraternais (e em especial as ocultistas) possuem uma ordem "interna" e uma "externa", sendo que eventualmente há múltiplas ordens. Cada nível de iniciação trazendo seus membros cada vez mais para dentro de seus profundos mistérios. Muitas ordens ocultistas como a Ordem Hermética da Aurora Dourada baseavam suas iniciações nos graus da Maçonaria. Organizações como a Aurora Dourada e os Teosofistas também alegam autoridade para ter suas lojas e praticar seus rituais assim como a Maçonaria tradicionalmente o faz. A Aurora Dourada dizia ter a autoridade dos Rosacruzes (que depois foram demonstrados fraudulentos), ao passo que outros ocultistas como H.P. Blavatsky, fundador da Teosofia, alegava tirar sua autoridade de "chefes secretos", autoridades espirituais transcendentais.


Página 14

O objeto brilhante é o "Trapezoedro Brilhante" de "O Habitante da Escuridão". Esse é também, na expansão feita por Moore, o mesmo meteorito de "A Cor que Veio do Espaço" que a Stella Sapiente "trouxe", visto de relance em Providence 05. HPL não fez essa conexão entre seus dois contos, mas Moore e Burrows fizeram. Sobre a forma dele falarei mais adiante.

Como vimos em Providence 02, o Liber Stella Sapiente é a edição original em Latim da qual se fez a tradução em inglês conhecida como o Alfarrábio de Hali. Em "O Habitante das Trevas" Blake encontra uma versão em Latim do Necronomicon na igreja.

"A gente... hã, escondia o quiabo, esse tipo de coisa." — No original aqui tinha uma gíria em inglês para sexo anal chamada "cornholing", que evoca os tempos em que se usava espigas de milho secas para cumprir a função exercida hoje pelo papel higiênico. Eu tentei adaptar mas como não sou um especialista em gírias gay vintage pode não ter ficado bem claro.


Página 15

"(...) Howard, eu não faço isso há tanto tempo... (...)" — A última vez que Black transou (excetuando o episódio de Manchester) foi ainda em Athol, conforme ele relatou em Providence 04.

"(...) está ficando tudo azul? (...)" — É uma refeferência à rarefação do ar, a sensação de falta de fôlego, descrita nos espaços carregados de orgônio de Providence 02 e em Neonomicon 02.

"Eu vejo coisas na pedra." — Isso não é o jovem Charles fumando crack... na verdade isso é outra referência a "O Habitante das Trevas".

A pedra parece ter sido modelada na forma de um trapezoedro 5/3. Não me peçam para explicar essa porra porque dei graças a Cthulhu por não ter que ser mais monitor de geometria plana e espacial. Se quiserem saber mais e estiverem bem no inglês, cliquem no trapezoedro.



Página 16

"Se as pessoas acharem que sou invertido, vão me trancar no Hospital Butler." — Pra começar, o termo "invertido" já foi usado antigamente para designar pessoas com orientação sexual diversa do convencional. A homossexualidade era (e ainda é por muita gente) tratada como uma doença mental, passível de internação e "tratamento". O Hospital Butler, do qual falaremos mais adiante, é o sanatório onde os pais de HPL morreram.


Página 17

Essa é Annie Gamwell, a tia mais nova de HPL.

"Ele é um inválido. Está assim desde pequeno." — Ecoa as notas dos biógrafos de que HPL era superprotegido pela mãe e pelas tias, e incutiram nele desde sempre a ideia de que ele era um inválido com aflições nervosas, coisa que ele eventualmente expressou em suas cartas para os amigos.

"Ele saiu e tentou se alistar no exército! A pobre mãe dele, que é a minha irmã Susie, ela logo pôs um fim nisso." — Como já mencionamos antes, HPL de fato chegou mesmo se alistar, mas a mãe dele contactou o médico da família e produziram um laudo dizendo que o jovem HPL não tinha condições físicas e psicológicas para desempenhar funções militares. HPL foi dispensado em seguida.



Lovecraft's Registration Card

"Claro, agora ela mesmo está no hospital por causa dos nervos. É um problema de família." — Sarah Susan Phillips, chamada carinhosamente de Susie, sofreu um colapso nervoso em 13 de Maio de 1919. Naturalmente a tia Annie adora fazer todo mundo achar que é um mal de família.


Página 18

HPL tinha a tendência de dar apelidos aos amigos. Uma das maneiras recorrentes era dar uma terminação latina. Outra tendência dele era de se estilizar como um velho, referindo-se às suas tias como netas.

Pela indumentária vemos que HPL aqui aparece mostrando outro de seus hábitos: usar roupas e acessórios do pai.

O pequeno objeto de metal sobre a mesa, perto da janela, provavelmente é uma luneta ou um telescópio de bolso, uma vez que HPL era um astrônomo amador e possuiu vários artefatos dessa natureza.

HPL tinha 1,79m de altura. Assim Black deveria ser uns dois centímetros mais baixo.

O lance do copo de leite faz referência a uma história contada por Rheinhart Kleiner a respeito de uma visita que fez a HPL onde "Eu percebi que a mais ou menos cada hora a mãe dele aparecia na porta com um copo de leite, e Lovecraft imediatamente o bebia." HPL detestava leite.

Vovô Teobaldo foi um dos pseudônimos de HPL.

Quando HPL adverte Black de como seria "ruinosamente custoso" hospedar-se em um hotel, fica claro também um outro atributo dele: por ter vivido a maior parte da vida em estado de pobreza, ele era conhecido por ser bem parcimonioso em relação ao custo das coisas.


Página 19

Plutarco e Heródoto são escritores clássicos bem conhecidos, em especial as Histórias de Plutarco e as Vidas de Heródoto. HPL era muito bem versado nesse tipo de literatura sendo ele um Classicista, e usou muito disso como influência em seus primeiros trabalhos. Há um livro dedicado justamente à esse detalhe, Lovecraft's Library, de S.T. Joshi.

De Whipple Phillips já falamos em edições anteriores.

"Depois da morte de papai, ele cuidou de mim e de mamãe." — Com W.S. Lovecraft morrendo em 1898, coube ao avô materno cuidar da pequena família da filha, o que ele fez até sua morte em 1904.

"(...) de fadiga agravada por seu emprego como vendedor." — W.S. Lovecraft na verdade sofria de alucinações, seguida por paralisia, que se acreditavam serem decorrência de sífilis. HPL aparentemente não tinha ciência da natureza da doença de seu pai, ou ao menos nunca mencionou isso em suas cartas. Em Sex and the Cthulhu Mythos, há um capítulo dedicado a esse tema chamado "A Sombra da Sífilis".

Outro fato verídico: HPL nunca entrou no Hospital Butler, mas de forma infrequente visitava sua mãe no terraço do nosocômio.

O "troncos velhos" que usei aqui foi uma adaptação deliberada para um maneirismo linguístico que aparece no original: "old uns", que seria uma maneira de dizer "old ones" com um sotaque mais carregado. Isso traz à mente a tradução literal "antigos" e, por associação, os "Grandes Antigos" (Great Old Ones), um grupo de monstros alienígenas que inclui Cthulhu.

Como mencionei em edições anteriores, Whipple Van Buren Phillips era mesmo maçon e fundou uma loja em Greene, Rhode Island. No Necronomicon de George Hay, o escritor Colin Wilson usou esse fato para soltar no ar que Van Buren foi a fonte do manuscrito do Necronomicon que inspirou a ficção de HPL, o que Moore parece estar acompanhando.


Página 20

HPL e sua tia iriam depois morar nesse mesmo endereço na Rua College, nº 66. A casa também foi presumivelmente onde Robert Blake ficou em "O Habitante da Escuridão".

"Ali está o afeito local de minha infância, número 454." — O local apontado por HPL é na verdade o número 598 da Rua Angell. Possivelmente, com remanejamentos urbanos a numeração das casas pode ter sido alterada nos anos que se passaram.

 Lovecraft's birth home at 454 Angell Street. Photo via hplovecraft.com

Ainda no segundo painel, percebam que há um gato preto, pouco mais que uma sombra, no gramado à esquerda. Já mencionei em outras ocasiões que HPL era um fã inveterado de gatos e podemos ver gatos em quase todas as edições de Providence e Neonomicon.

Agora vem a porra que me encheu o saco pra descobrir do que se tratava! Zobo Kazoo é uma referência a uma carta para August Derleth em que HPL escreveu mais ou menos o seguinte:
"Quando, nos meus 11 anos, eu era membro da Banda Militar Blackstone (cujos joviais membros eram todos virtuosos no que era chamado de 'zobo' — um tipo de corneta de bronze com uma membrana na extremidade, o que transformaria o zumbido em uma  imponência deliciosamente estridente!) minha habilidade quase única de manter o ritmo foi recompensada pela minha promoção para a percussão de retaguarda. (Selected Letters 3.246 , 31 de Dezembro de 1930)

"(...) embora eu me esforce para capturar uma certa atmosfera local (...)" e "(...) eu ultimamente considerei perseguir uma veia mais cômica. Uma brincadeira recente, 'Sweet Ermengarde', se provou bem popular..." — A escrita de HPL sempre refletiu seu regionalismo da Nova Inglaterra, inclusive em contos praticamente desconhecidos como "Doce Ermengarda", de sua curta tentativa na seara da comédia de costumes que foi sucedida por sua bem mais conhecida inserção na ficção fantástica e científica.


Página 21

"(...) minha fragilidade fisiológica me impediu de fazê-lo." — HPL (supostamente) teve um piripaque dos nervos e, por consequência, fracassou no colegial (o equivalente atual ao nosso "nível médio"), nunca chegando a frequentar uma faculdade.

O local do primeiro painel é o cruzamento das ruas College e Prospect.

A Sra. Willets, presumivelmente baseada em Alice Sheppard, uma professora alemã do ginásio (antigamente seria da 5a à 8a série), que locava o imóvel em questão e sublocou os aposentos no piso superior para HPL e sua tia Annie Gamwell em 1933. Willet é um sobrenome que aparece em "O Caso de Charles Dexter Ward": um certo Dr. Marinus Bicknell Willet ocupava o endereço na Rua Barnes, nº 10 (outro endereço que HPL ocuparia no futuro).

"(...) esta vista da Federal Hill e da Torre Menor é notável." — Quando HPL morou nesse quarto, foi junto à essa janela que ele colocou sua escrivaninha.


Página 22

O foco do zoom dessa página é a Igreja de São João, mas precisamente a Torre Menor.

"(...) um autodidata iletrado..." — HPL depreciava o fato de ele mesmo não ter ido para a faculdade.

"Horológicos" refere-se à horologia, a arte ou ciência de medir o tempo.

"Meus vagueios são com frequência noturnos (...)" — Eis um detalhe interessante: HPL tinha dificuldade em manter horários regulares e frequentemente estava acordado tarde da noite, quando ele fazia caminhadas que poderiam medir vários quilômetros. Trocando em miúdos, rodava mais que juízo de doido!

A mulher no campanário da igreja de São João parece ser a mãe de Johnny Carcosa. Isso sugere que o "chefe secreto" da Stella Sapiente possa ser Nyarlathotep, de quem Carcosa alega ser um avatar em Neonomicon. Nyarlathotep era o próprio "Habitante da Escuridão" ligado ao Trapezoedro Brilhante no conto de HPL.

Pra quem achava que a mãe de Johnny Carcosa era uma personagem de pouca ou nenhuma importância, até aqui ela já apareceu em (obviamente) O Pátio 01 e 02, Neonomicon 01, e em Providence 02 e 08.


Página 23

"(...) um ameno dia de novembro no qual o frio não me indispôs." — Aqui sim tem uma verdadeira doença que afetava HPL: ele tinha severas reações físicas ao frio, resultando em inchaços nas extremidades e grande perda de vigor corporal. Acredita-se hoje em dia que as doenças de HPL eram em grande parte psicossomáticas, ou resultado de uma superproteção parental.

O local aqui é a esquina das ruas Prospect e Waterman.

"Ela aparentemente relatou ver criaturas hediondas... apesar de não para mim." — O colapso mental de Susan Lovecraft em geral sempre foi creditado ao crescente desastre causado pelo estado financeiro precário da sua família.


Página 24

Esse local parece ser a esquina da Rua Angell com a Avenida Butler.

Percebam que Moore deliberadamente usa referências desconexas de forma que dificulte para Black perceber que Henry Annesley e HPL estão falando da mesma pessoa... que Howard Phillips Lovecraft é o redentor.

O "Seekonk" é um rio que passa em Providence.

O Parque Blackstone ainda existe no mesmo local, logo ao sul do Hospital Butler.

De fato, os irmãos Chester e Harold Munroe, foram amigos de infância de HPL.

"Você tem ciência de que é da gruta do Imperador Nero, decorada com faunos e quimeras, que deriva a palavra 'grotesco'?" — A gruta de Nero, a Domus Aurea, foi descoberta acidentalmente no Século XV e os afrescos grottesche de criaturas quiméricas foram deveras influentes para a Renascença Italiana. Essa lembrança pode ter vindo de uma observação da esposa de HPL que contava que a mãe dele o achava "hediondo" e "grotesco".

Como o próprio HPL menciona, o local no terceiro painel é a esquina das Avenidas Grotto e Lincoln.

O "Sr. Slaader" em questão é Joe Slater (ou Slaader) de "Além da Barreira do Sono".

"Ah, você deveria ler Dagon. Aquilo certamente vai chacoalhar o amadorismo." — o conto Dagon foi publicado no jornal amador The Vagrant em Novembro de 1919.

Numa pesquisa pela internet não fica claro se há uma entrada para o Hospital Butler na extremidade leste da Av. Lincoln, embora o mapa de Providence que aparece em Providence sugira isso.


Página 25

A paralisia é uma consequência da paresia (uma paralisia parcial relacionada aos nervos), um sintoma da neurossífilis. (sei lá se é assim que se escreve!)

O prédio ao fundo é de fato o Hospital Butler, como ele era na época. Abaixo uma imagem de um cartão postal. (Obs: Tem que ser doido mesmo pra mandar um cartão postal de um sanatório!)




Historic postcard of Butler Hospital. Image via Providence Public Library
Apesar dos registros históricos e do próprio HPL dizer que não visitava sua mãe com frequência, a fala da enfermeira "Ora, Sr. Lovecraft. Está aqui para visitar a jovem Srta. Susan de novo?" implica que na verdade as visitas dele eram mais frequentes do que ele gostaria de admitir. O reconhecimento imediato da enfermeira, o "de novo" e o fato de ela chamar a Sra. Susan de "jovem", tal como HPL tratava carinhosamente as pessoas de quem gostava, se colocando na posição de um velho diante delas, fazem deduzir que ele era bem conhecido da equipe do hospital.


Página 26

Black está claramente prestando atenção na conversa dos Lovecrafts.

"Você acha que pode se redimir?" — esse "se redimir" é uma referência oblíqua ao papel de HPL como o Redentor da profecia da Stella Sapiente, como eu já vinha apontando.

"Você é outro inglês?" — É uma referência ao pai de HPL, Winfield Scott Lovecraft, que embora tenha nascido nos EUA tinha um forte sotaque inglês assim como o do pai dele.

"Você é hediondo." — É... a esposa do HPL tinha razão, a mãe dele não era muito fã dele.

"Quando ele te pôs em mim, a cabeça dele era uma bola de luz! Eu não tive escolha..." — Decididamente, a concepção de Wilfred Wheatley e seu irmão (Providence 04) foi bem parecida com a de HPL, num ritual semelhante. Pelas reações faciais de Black ele percebeu alguma conexão aqui, apesar de ele não mencionar este momento quando escreve posteriormente no seu Livro de Banalidades.


Página 27

"Ah, não! Mas os caça-moscas e anelídeos, esses virão, não é? Vá embora, Winfield! Sinto o suor deles em você!" — Essa deu trabalho... no original isso tinha um monte de sentidos. "Caça-Moscas" no original era "Flappers", que pode ser traduzido de um monte de maneiras, mas uma delas era justamente uma gíria para mulheres "de vida fácil" durante a Gilded Age (Anos Dourados!), só que não passava a ideia dos seres que ela estava vendo... e "Wriggle" pode ser traduzido tanto como seres anelídeos (como os que ela vê), como uma gíria para pessoas que dançam de uma forma sensualizada. O fato de ela estar confusa, sob efeito de medicamentos fortes, de estar vendo um monte de coisas estranhas voando na frente dela, de possivelmente ter contraído neurossífilis do marido (o que não ajuda em nada e provavelmente faz com que ela confunda o filho com o pai...), tudo isso me levou a adotar o sentido das criaturas que ela vê em ambas as expressões, em vez de mencionar o sentido sexual que tem a ver com o próprio fato de ela estar naquela condição. Muitos biógrafos de HPL presumem que Winfield contraiu sífilis de prostitutas e que poderia ter passado isso para a esposa. Não era nada incomum, na verdade. Moore trabalhou com esse tema em um dos capítulos de "Yuggoth Cultures & Other Growths" (minissérie da Avatar em 3 edições, formato de livro ilustrado) chamado "Recognition".

"Olhe aí! Você os atiçou! Eles estão ao seu redor!" e "Eles estão na sua boca! Estão nadando no seu coração!" — Ela se refere às criaturas invisíveis aos sentidos humanos naturais que se movem inofensivamente (ao que parece) através da matéria "normal".

"É ele que os está atiçando?" — Isso sugere que Black, como o Arauto, está agitando as criaturas invisíveis com sua mera presença.

"Eu creio que ela já clareou a pele com arsênico quando isso era moda no tempo dela." — Embora não haja evidências concretas disso, a crença comum era de que Susie Lovecraft recorreu a esse expediente quando era mais moça. Creio que falei disso em uma das primeiras edições...


Página 28

"(...) nos meus dezoito anos, quando minhas preocupações animais estavam em seu lamentável pináculo." — Segundo consta, HPL relatou que seus mais intensos desejos sexuais ocorreram até os 19 anos, e daí por diante foram diminuindo.

No segundo painel vemos pelos olhos de Susie Lovecraft. Ela consegue ver as criaturas invisíveis sem os óculos de Annesley. De fato, as criaturas parecem estar pairando ao redor de Black (e talvez de HPL) sugerindo que ele possa ser algum tipo de catalisador. O Ressonador de Tillinghast em "Do Além" estimulava órgãos sensoriais ignorados que existem em nós como vestígios atrofiados ou rudimentares, o que ou Susie os desenvolveu de forma mais completa, ou foi estimulada a tal nível pelas experiências pelas quais passou... isso sugere que a pesquisa de Annesley é ainda mais derivada do Alfarrábio de Hali.

Algumas das criaturinhas que Susan vê são parecidas com seres marinhos e criaturas microscópicas, algumas com características intrigantes. Perto da mão esquerda dela tem uma com um jeitão de espermatozoide de Cthulhu. Na mão direita dela tem uma coisinha com simetria radial de cinco eixos como as criaturas com cabeça de estrela de "Nas Montanhas da Loucura. Algumas flutuando pelo painel lembram em parte o microrganismo que causa sífilis... e por aí vai.


Página 29 - Livro de Banalidades

The Vagrant (algo como "O Errante") foi uma publicação amadora onde HPL publicou Dagon pela primeira vez em Novembro de 1919.

A passagem em que Black menciona "assombrações com padrão reconhecível" é algo que HPL tratou como não efetivas para a construção de um bom conto de ficção fantástica ou mesmo de horror. Parte da efetividade da mitologia artificial de HPL é justamente ser diferente dos fantasmas, vampiros e lobisomens de sempre, e que eram figurinhas carimbadas na ficção pulp da época.


Página 30

"(...) estão de fato se reconfortando em sua escolha de horrores (...)" — É uma reminiscência de uma observação feita várias vezes por diferentes pessoas... Monstros famosos são como velhos amigos para aficionados por horror, com seus hábitos e apetites bem conhecidos e suas aparições registradas em película ou papel. As obras de HPL, em contraste, enfatizaram o "medo do desconhecido" como ele próprio bem detalhou em "O Horror Sobrenatural na Literatura", excelente ensaio teórico do mestre cujos ensinamentos persistem válidos até hoje. Recomendo severamente a leitura dessa obra tanto aos pretensos (ou verdadeiros) escritores quanto aos fãs da obra de HPL em geral.

"(...) Um terror genuíno seria um onde até saber que tal coisa existe seria mais que o bastante para levar uma pessoa comum a uma insanidade absoluta e irrecuperável." — Esta é uma brincadeira com o senso comum sobre a ficção de HPL, embora na verdade a maioria de seus protagonistas não acabe no fim em um manicômio.


Página 31

Se alguém ainda não sabe quem foi Einstein não sou eu quem vai explicar.

O quadro de Duchamp foi mencionado em Providence 02, se não me engano.

"Os Deuses de Pegaña" é uma obra seminal de Lord Dunsany, detalhando sua própria mitologia artificial, a qual inspirou a formação da própria mitologia de HPL. O link que coloquei aí possibilita acessar esse livro apenas em inglês até porque infelizmente a maioria esmagadora da obra de Dunsany permanece inédita em português.


Página 32

"(...) um velho livro fantasticamente obscuro, em francês, a respeito das lendas das ilhas do Pacífico Sul." — Possivelmente seria o análogo de Providence para Cultes des Goules (~ Culto dos Carniçais) ou o Livre d'Eibon (Livro de Eibon), tomos de mitos criados por seus amigos Frank Belknap Long e Clark Ashton Smith, respectivamente. Recordem que já falamos desses escritores em outras ocasiões. O Pacífico Sul é, naturalmente, onde HPL posicionou R'Lyeh, e onde o Capitão Marsh aprendeu a contactar os Abissais em "A Sombra Sobre Innsmouth".

"(...) algum tipo de grotesca deidade ou espírito aquático, sentada em um trono fantástico (...)" — Possivelmente uma referência a Pai Dagon ou Mãe Hidra na mitologia de HPL. A criatura Rhan-Tegoth de "O Horror no Museu" também foi especificada como sentada em um trono.

Essa "coroa estranha" se refere a "A Sombra Sobre Innsmouth". Os membros da família Marsh tinham joias e artefatos de ouro provenientes de seu comércio, incluindo uma tiara que o protagonista Robert Olmstead descreve assim (tradução de Celso M. Paciornik para a Ed. Iluminuras):
"Quanto mais eu a observava, mais a coisa me fascinava, e nesse fascínio havia um elemento perturbador, difícil de classificar ou explicar. De início, decidi que era a qualidade curiosa, como se fosse de um outro mundo, da arte que me deixou incomodado. Todos os outros objetos de arte que eu conhecia ou pertenciam a alguma vertente racial ou nacional conhecida, ou eram deliberados desafios modernistas às correntes reconhecidas. Essa tiara não era nem uma coisa, nem outra. Ela pertencia com toda evidência a alguma técnica acabada com enorme maturidade e perfeição, não obstante essa técnica fosse de todo anterior a qualquer outra — ocidental ou oriental, antiga ou moderna — que eu tivesse ouvido ou visto exemplificada. Era como se a arte fosse de um outro planeta."
O Sr. Boggs e o Sr. Hillman são dois dos híbridos de Abissais e Humanos vistos em Providence 03.


Página 33

"(...) as origens da assim chamada "magia" podem estar no advento da linguagem e da escrita." — É um conceito com o qual Moore já brincou em outras obras, e há base histórica para isso, assim como explorado por Owen Davis em Grimoires: A History of Magic Books. Uma das inovações de HPL e seus contemporâneos a esse respeito está em um sistema de entrelaçamento dos grimórios fictícios, alguns com extensivas histórias publicadas. A ideia de escrever como um ato de magia involuntário reflete posteriormente no desenvolvimento da "magia do caos".

"(...) seja pelo emprego de magia ou por outros meios menos contenciosos, parece que palavras e livros, demonstravelmente, podem mudar nosso mundo ao mudar nossa percepção dele; podem precipitá-lo em um outro estado totalmente." — Esta é uma declaração que pode ser lida em vários níveis. Como um personagem fictício sujeito ao roteiro de Moore, isto é uma verdade literal para Black. Para o leitor desta HQ, ler alguma coisa pode mudar absolutamente a sua percepção das coisas. Da mesma forma, toda a edição 09 (e em alguma medida toda a série) lida com a questão da percepção, com o que Black vê e não vê, e o leitor da HQ vê e não vê. Isto também pode ser uma referência sutil a Grant Morrison, que escreveu a série Os Invisíveis como um símbolo mágico chamado de "Hypersigilo":
"O “hypersigilo” ou “supersigilo” leva o sigilo além do conceito da imagem estática e
incorpora elementos como caracterização, drama e plot. O hypersigilo é um sigilo
estendido pela quarta dimensão. Minha série de quadrinhos Os Invisíveis foi um sigilo
que durou 6 anos sob a forma de uma aventura do oculto consumindo e alegrando a
minha vida durante o período de duração e execução. O hypersigilo é um método
poderosamente imersivo e às vezes perigoso para alterar a realidade de acordo com a
intenção. Os resultados podem ser extraordinariamente chocantes."

Página 34

Taliesin foi supostamente um lendário bardo Galês.


Página 35

"(...) como se eu fosse transportado no tempo por um dispositivo de H.G. Wells para uma época anterior." — É uma referência a "A Máquina do Tempo" de Herbert George Wells.

"Não como 'Um Ianque de Connecticut na Corte do Rei Arthur', mas passa perto." — Isso se refere ao livro com esse nome de autoria de Mark Twain. Esse romance de Twain envolve a transmigração de almas através do tempo e pode ser visto como um antepassado de "O Caso de Charles Dexter Ward".


Página 36

Black acertou o gentílico mesmo. Seria "providenciano" mesmo.


Página 37

Julio Verne é um dos primeiros escritores de ficção científica. Moore usou o famoso Capitão Nemo de "20000 Léguas Submarinas" em "A Liga Extraordinária".

Acreditava-se na filosofia antiga que o "éter" seria a substância entre as esferas terrestre e celestial e até o início do século XX esse conceito era usado na física como sendo o meio de propagação da luz e da gravidade, o que eventualmente foi substituído pela Teoria da Relatividade de Einstein. HPL em geral acreditava nas teorias de Einstein mas ainda mantinha certa crença no æther ou, ao menos, fez uso disso em contos como "Nas Montanhas da Loucura".


Página 38

Dos Teosofistas eu já falei, mas um detalhe digno de menção é que HPL tinha pouco conhecimento dessa corrente filosófica/espiritual, até receber algum material sobre o assunto pelas mãos de seu colega escritor E. Hoffmann Price, chegando a mencionar isso em "O Chamado de Cthulhu".

"(...) a tradução em Latim do Kitab original feita em Toledo e publicada em Veneza na década de 1490 (...)" — Isso está em descompasso com o Necronomicon de HPL, que foi traduzido para o Latim por Olaus Wormius em 1228, e uma versão foi publicada na Espanha no século XVII. Toledo era um centro de erudição com uma reputação ocultista associada com diversos grimórios do mundo real.

Página 39

"(...) ou possivelmente o meteorito evaporou como eles alegaram (...)" — Refere-se a "A Cor que Veio do Espaço", onde o meteorito evaporou (se bem que o termo correto seria "sublimou"...). Contudo, em Providence, como mostrado nas edições 05 e 06, a Stella Sapiente malocou o bagulho, usando essa história de evaporação como despiste. O resultado é o que vemos nesta edição.

"(...) todas as idas e vindas de nossas diversões (...)" — preciso mesmo explicar o duplo sentido disso?


Página 40

A tal "Caverna do Aladin" é a Caverna dos Tesouros de "As 1001 Noites". HPL quando criança tinha uma certa fixação pela cultura árabe anterior ao islamismo e foi desse interesse que ele tirou o nome Abdul Alhazred, que um vizinho teria lhe dito que era um "bom nome árabe" e que bem posteriormente foi alçado à condição de escritor do Necronomicon.

De Nathaniel Hawthorne já falei na #03.


Página 41

"(...) ele ficaria feliz de me emprestar sua cópia de cortesia para que eu pudesse ler sua contribuição." — HPL frequentemente dava e emprestava suas histórias para amigos e correspondentes.

O "Sargasso" a que ele se refere é o Mar de Sargaços, uma região do Atlântico próxima ao Caribe conhecida pela abundância dessas algas. Foi escrita com "ss" em vez de "ç" porque provavelmente Black usou a denominação pela qual essa região é conhecida nos EUA e Caribe, com seu nome derivando do espanhol, que não tem "ç".


Página 42

"(...) tão cheia de revulsão tátil e olfativa que o leitor não pode evitar de pensar que essas desconfortáveis reações viscerais partiram do próprio autor e de suas sensibilidades." — Era público e notório que HPL ficava fortemente nauseado com aromas de frutos do mar.


Página 43 - Contracapa

Provavelmente retirado de Lord of a Visible World 190-191. Reconta a volta de HPL a Providence depois de viver em Nova Iorque.

3 comentários:

Edson SOUZA DE OLIVEIRA disse...

Obrigado por mais essa postagem Skaetos. Na página 05 o último balão está em branco. Gostaria de saber se está assim também no original.

Skætos disse...

Não, Edson. Houve mesmo uma falha que passou batida. O que tem nesse balão é "Aliás, é aqui onde vivo. Entre." Corrigiremos isso em breve.

Marcio Roberto disse...

Li esta edição ainda hoje, só faltava mesmo a parte do caderno de banalidades, já que saiu a décima e eu quero muito ler.

"A pedra parece ter sido modelada na forma de um trapezoedro 5/3. Não me peçam para explicar essa porra porque dei graças a Cthulhu por não ter que ser mais monitor de geometria plana e espacial."

Kkkkkkkk sério, essa deve ter sido a seção de extras mais engraçada desde o lance da edição quinta creio, quando você disse que sua mente quase deu um "tilt". Mas realmente cara uma coisa dá pra afirmar, Providence definitivamente é uma série para você focar-se e se concentrar, sempre prestando atenção e botando os miolos pra funcionar, tamanha é a riqueza de dados e todo esse jogo intricado no qual o coitado do Robert se envolve cada vez mais. Sério, eu me pergunto como isso vai acabar. Acho também que enfim entendi o lance das quatro dimensões e as passagens de tempo.