sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Providence 10 - Extras

Olá! Como já é praxe, eis que aqui estamos de volta com mais uma seção de extras. Acreditem ou não, esta deu trabalho. Muito trabalho. Uma recomendação: releiam as edições anteriores! Lembro a vocês que só leiam esta seção após terem lido e RELIDO a edição #10 logo acima. Divirtam-se e lembrem que a seção de comentários serve justamente para que vocês tirem dúvidas ou acrescentem pensamentos aqui. Antes que eu esqueça: a ilustração acima é a capa do primeiro encadernado de Providence que saiu por lá, compilando as três primeiras edições.



Capa Regular

Pois é, galera... a gente já falou na edição passada da antiga igreja católica de São João que havia na Avenida Atwells, distrito de Federal Hill, em Providence. Aqui temos uma "tomada" bem bolada feita pelo incansável Jacen Burrows.


Capa Pantheon

Como imagino que todos vocês já leram a #10, então sabem que Johnny Carcosa aparece de forma contundente nesta edição. Já falei dele em outras ocasiões e, mais adiante, falarei mais um pouco.


Capa Portrait

Para quem não notou, esse é Japheth Colwen em uma cena nos subterrâneos da mansão fortemente baseada na descrição de "O Caso de Charles Dexter Ward" (que abreviarei daqui por diante como CCDW), de Howard Phillips Lovecraft (também abreviado como HPL).


Capa Women
Olha aí a velha sinistrona! Lembrem-se que ela já apareceu antes. É a "mãe" de Johnny Carcosa, de quem ainda não sabemos nem mesmo o nome, embora meu palpite é de que ela certamente vai desempenhar um papel de maior relevância nesta série do que aparecer pelada e com a garganta cortada. Por enquanto, na falta de um nome, vou chamá-la de Sra. Carcosa. De fato, tenho um outro palpite... talvez ela não seja exatamente a mãe de Carcosa, mas vou deixar para tecer mais comentários sobre isso nas próximas edições.


Capa Weird Pulp
Mais uma vez, a Igreja de São João, só que desta vez num enfoque mais parecido com a igreja da Sabedoria Estrelada de "O Habitante das Trevas", conforme ela foi descrita lá. A simpática criatura parece ser uma referência ao "olho flamejante de três lóbulos" descrito nesse conto de HPL.


Capa Wraparound

Essa cena foi inspirada em "A Busca Onírica pela Desconhecida Kadath". Aqui vemos os Homens do Platô de Leng, com seus chifres e pés com cascos fendidos. Agora vamos para a história?


Página 03

O dia aqui é 27 de Dezembro de 1919. Pela luminosidade baixa, suponho que o horário seja mais pro fim do dia do que os eventos mostrados na narrativa das páginas seguintes. Vemos os degraus da entrada da Igreja de São João e a mulher no centro é a Sra. Carcosa. Dos lados, mulheres estão orando diante de velas de oferenda e flores que parecem ser lilases ("lilies", no inglês, o que evoca a lembrança de Jonathan "Lily" Russell, o/a namorado/a de Robert Black que morreu ainda na primeira edição). Aparentemente a perspectiva dos painéis é mostrada a partir do ponto de vista de alguém no topo das escadas, mas isso é pura suposição minha.
Essas falas, que depois descobrimos serem de HPL, não foram extraídas de nenhum escrito do próprio HPL, mas são extrapolações do próprio Alan Moore, emulando o estilo e sentimento de HPL em relação a esses eventos.
Observem que as bordas dos quadros estão retas, o que denota percepção sensorial ampliada ou paranormalidade.

"Pensar que aqueles pés (...) a epítome do horror e do estranho (...)" — Apesar de HPL estar se referindo diretamente a Edgar Allan Poe (de quem já falamos) aqui, fica nas entrelinhas que isso se encaixa na descrição da Sra. Carcosa. Lembrem que na edição passada ficou meio que implícito que ela seria a "chefe secreta" da Stella Sapiente. Kelly Sheehan, em comentário no Facts in the Case of Alan Moore's Providence, apontou que isso pode também ser uma alusão ao poema "Jerusalém" de William Blake, cujo trecho trago aqui na tradução do blog Canto dos Encantos e Desencantos:
"Em tempos idos, estes pés,
Peregrinaram nas montanhas:
Foi visto então, o Cordeiro,
Nos pastos verdes da Inglaterra!"
Observem que isso remete à analogia entre Lovecraft, o "Redentor" da Stella Sapiente com Jesus Cristo. Detalhe: o mais novo romance de Alan Moore chama-se justamente... Jerusalém.

"Aquela testa abaloada, sobre um fervilhar de tortura e flagelo e sufocamento (...)" — Isso refere-se a alguns dos mais notáveis trabalhos de Allan Poe como "O Poço e o Pêndulo", "A Máscara da Morte Rubra" e "O Barril de Amontillado". Ou mais uma vez, como é costume de Moore o uso de mais de uma interpretação em seus textos, pode se referir também à liderança da Stella Sapiente nas mãos da Sra. Carcosa.

"(...) uma compulsão por conversar com uma única e específica mulher." — Essa era a razão por trás da ida de Poe a Providence em 1848: ele cortejava uma poetisa local chamada Sarah Helen Whitman (o que acabou não dando certo...). Em "A Casa Abandonada", logo no primeiro parágrafo, HPL menciona isso como um detalhe histórico.

"Mais que a maioria, eu não sou competente para especular sobre esses anseios, nem essas expectativas." — Isso se refere a HPL até aquele ponto ainda ser virgem (é sério!) e nunca ter tido nenhum envolvimento romântico. Isso também significa que HPL ainda não encontrou ninguém da Stella Sapiente, que ele soubesse, até aquele momento.

"(...) um ser tão monumental." — Aqui temos três interpretações: A) A óbvia referência a Allan Poe; B) A Sra. Carcosa, dado o seu poder dentro de uma "organização" tão misteriosa, poderosa e blasfema; ou C) Será que o tal ser monumental não seria o "alguém" que a Sra. Carcosa e as outras mulheres estão olhando na escadaria da São João? Eu não duvido nada de ser um dos monstros dos mitos de HPL.

“Ylyl yr nhhngr” é Aklo. “Yr nhhngr” foi a terceira palavra em Aklo dada por Johnny Carcosa para Aldo Sax em O Pátio, e foi extraída de "O Horror de Dunwich", conto de HPL sobre o qual já falamos em edições anteriores. Em Providence 05 o Padre Race também falou especificamente sobre essa expressão como sendo uma flexão verbal denotando tempo "encapsulado".

"Agora é antes" (no inglês "now is before") poderia ser uma tradução literal indicando um encontro do passado com o presente, o fechamento de um loop temporal ou, quem sabe, até mesmo a substituição de Charles Howard por Japheth Colwen.


Página 04

Este é o velho cemitério da Catedral Episcopal de São João, em Providence. Tanto Poe quanto HPL visitaram este lugar. À distância vê-se o domo da Rhode Island State House, sede do governo estadual.

O título desta edição remete a um poema de Poe de mesmo nome que depois foi incorporado a "A Queda da Casa de Usher", que exerceu grande influência sobre HPL. Pode também se referir a um filme de Roger Corman de 1963 também chamado "O Palácio Assombrado" ("The Haunted Palace", no inglês) que, a despeito do título era na verdade uma adaptação de CCDW.


Página 05

A "Srta. Whitman" é Sarah Helen Whitman, que já mencionamos.

"(...) quase onírica, embora inteiramente diversa de Dunsany." — Isso refere-se a como diversas histórias de Lord Dunsany se passam em um "mundo de sonhos", o que antecipou o próprio ciclo onírico de HPL. Mais sobre isso em Providence 08.
"A Nau Branca" é um conto de HPL pouco conhecido, mas que chegou a ganhar edição nacional pela Editora Iluminuras, numa coletânea de livros de contos de HPL. Recomendo. Esse conto foi originalmente publicado na edição de Novembro de 1919 de The United Amateur.

"Este frio de dezembro me enerva consideravelmente." — Em toda sua vida HPL sempre sofreu de reações físicas agudas ao frio.

O "nobre Plunkett" é o Lord Dunsany, cujo nome completo era Edward John Moreton Drax Plunkett.

"Eu acho que há outros contos em que Poe tratou do pós-vida, como a história dele, a de Marie Roget..." — Isso se refere ao conto "O Mistério de Marie Rogêt", que a princípio promoveu Poe como se ele tivesse de fato resolvido o assassinato de Mary Rogers. Nós já tínhamos tratado disso em Providence 02.

"E também tem as farsas dele como 'O Escaravelho de Ouro', que ele apresentou a primeira vez como uma história real." — O Escaravelho de Ouro foi um famoso boato criptográfico envolvendo um suposto tesouro de piratas. Taí um conto muito bom. Boa sorte com as garimpagens!


Página 06

Temos aqui a primeira aparição de Japheth Colwen, fumando um antiquado cachimbo de barro, com uma barba por fazer, em contraste com o jovial e sem barba Charles Howard que vimos na edição passada. Colwen e Howard são, respectivamente, os análogos de Joseph Curwen e Charles Dexter Ward de CCDW. Nessa noveleta o jovem Ward acaba por reviver seu antepassado que, por fim, toma o seu lugar.

"(...) eu não considerava meu solo nativo um pano de fundo adequado para o fantástico." — Em "A Estampa da Casa Maldita", de 1920, HPL já está bem ciente de que a Nova Inglaterra poderia sim ser o cenário de diversas das suas pavorosas histórias.

"(...) Howard, isto é uma piada?" e "Enfaticamente não. ninguém aprecia quando eu faço isso." — É notório que HPL tinha um senso de humor bem áspero, às vezes ficando difícil discernir quando ele estava tentando fazer uma piada ou quando ele estava sendo sério.


Página 07

"É que você parece diferente de quando te vi da última vez." — Como mencionei em ocasiões anteriores, Howard Charles é o descendente de Japheth Colwen que Black conheceu (e comeu) em Providence 09. Essa frase implica que Japheth Colwen já substituiu Howard Charles assim como aconteceu com seus análogos em CCDW.

"(...) como meu ilustre antepassado." — Isso deveria mostrar como a dicção e o vocabulário de Charles/Colwen se tornaram mais formais e arcaicos, ironicamente como o próprio HPL. Infelizmente não acho que consegui passar isso da forma que queria na tradução, mas em inglês fica bem patente.

"(...) sua natureza essencial." — Uma referência ao método empregado no processo de ressurreição (sais essenciais) que foi visto em CCDW.

"(...) aqui em nosso santuário (...)" — Aparentemente trata-se de "A Casa Abandonada", imóvel esse que está ao fundo.

"(...) o festival que acabou de passar..." — É uma referência ao conto "O Festival", de HPL. Black, ainda sem se perceber do que está havendo, pensa que está se falando do Natal.

Ah, um detalhe que só observei na segunda leitura é que, pelo enquadramento da página, tem alguém observando numa janela da casa abandonada. Não fica claro quem está lá, mas a casa é propriedade da Stella Sapiente.


Página 08

"Eu ouvi sobre tais coisas, mas nunca vi uma antes. Resolvi garantir tal tomo eu mesmo." — Isso antecipa a decisão de HPL fazer ele mesmo seu próprio "livro de banalidades", o que se iniciaria por volta de 1920.

Mencionei Hali e Ambrose Bierce na primeira edição. De fato, Robert Chambers toma emprestado esse termo ao criar seus contos em "O Rei de Amarelo".

"Chambers, o escritor de romances? Eu não teria pensado isso." — A surpresa de Black se deve ao fato de que Chambers, depois de sua incursão na seara do estranho, se tornou um bem-sucedido novelista e romancista, raramente voltando aos temas vistos em "O Rei de Amarelo". De fato, HPL só viria a ler esse livro em 1926.

Khālid Ibn Yazīd é o análogo de Providence para o Árabe Louco, Abdul Alhazred, de HPL... que seria o "transcritor" do famigerado Necronomicon.

Sobre a coisa de HPL gostar de referir a si mesmo como vovô Teobaldo, vale ressaltar que ele chegou a escrever sob o pseudônimo de "Lewis Theobald, Jun".

"Filhos" era uma espécie de título honorífico que HPL dava a certos amigos próximos, notadamente Albert Galpin e Frank Belknap Long. Mulheres, por sua vez (em especial, suas tias), eram chamadas de "filhas".


Página 09

O Samuelus em questão era Samuel Loveman, poeta e estudioso que por muitos anos foi um dos mais próximos de HPL. Uma pena que, depois de desentendimentos sobre os quais não me cabe aqui emitir opinião, Loveman tenha decidido destruir toda a correspondência que tinha de HPL. Loveman escreveu o poema "O Hermafrodita" que, apesar da wikipedia dizer que foi lançado em 1921, segundo fontes como Joshi na verdade começou a ser "construído" no fim da década anterior.

"Há uma qualidade no jeito de Loveman que lembra a ti." — Loveman, assim como Black, era judeu e homossexual. Não transparece aqui que HPL tinha ciência disso até este momento.

Adonis é uma divindade grega clássica conhecido por sua beleza.

"Epiceno(a)" é ter características de ambos os sexos ou de nenhum. Quando HPL fala em "companhia epicena" está confundindo a homossexualidade com falta de masculinidade em homens. Esse assunto é discutido em Sex and the Cthulhu Mythos.

"Platônico" refere-se ao filósofo grego Platão, que propõe a existência do mundo das ideias.

Embora puramente intelectual em sua essência, HPL professava uma aversão a relações homossexuais. De fato, segundo ele admitiu em uma de suas inúmeras cartas, ele só veio a ouvir falar de homossexualidade como um instinto real quando já tinha mais de trinta anos.

"Ainda mais notável quando alguém sabe que Loveman, embora uma exceção àquela desagradável tribo, é um judeu." — Isso demonstra de forma cabal que HPL nesse momento ainda era totalmente antissemita, embora ele fizesse "exceções" para amigos tais como Loveman e sua futura esposa Sonia Haft Greene, o que o fez mudar um pouco de ideia em anos posteriores. Ele tentava evitar de mencionar tais opiniões em suas correspondências com amigos judeus.

"(...) aliviados do frio e das infernais festas de Natal." — Referência tanto ao ateísmo de HPL quanto à sua fraqueza em climas mais gélidos. Embora não fosse um detrator do Cristianismo, tornou-se um apóstata ainda precocemente.


Página 10

Não sei porque, mas no primeiro painel a sombra de HPL projetada sobre Black me fez pensar que isso pode ser um prenúncio das edições vindouras.

Percebam que quando HPL demonstra um interesse especial no "livro árabe" e no nome do autor, isso se refere ao fato de que ele inconscientemente já está delineando o famigerado Necronomicon.

"Fez o que você é, eu acho." — Apesar de esta ser uma declaração aparentemente simples, entendam que aqui o propósito é demonstrar que HPL, com suas idiossincrasias, com seus preconceitos, sua cultura... é o somatório do ambiente em que viveu e das pessoas que o educaram. Não que isso justifique vários de seus posicionamentos com relação a homossexualidade, judaísmo, comunismo... mas explica como ele veio a ser o homem mediano que se tornou até aquele instante de 1919. É importante ter em mente que qualquer sujeito nas mesmas condições de HPL (branco, homem, com "bagagem cultural", dado a prazeres requintados...) dificilmente seria muito diferente dele naquela época e lugar. Uma pena que HPL, socialmente falando, não tenha sido melhor que seus pares, mas isso faz dele em última análise apenas um homem comum de seu tempo, por mais estarrecedor que isso pareça nos dias de hoje.


Página 11

"(...) a linhagem e a ambientação de alguém são uma forma de destino." — Na ficção de HPL isso foi expressado com o nome de Determinismo Biológico, em especial no conto de "Arthur Jermyn" e em "A Sombra Sobre Innsmouth", onde a herança biológica molda de forma irreparável as vidas deles. Isso mostra também uma expressão de seu classicismo essencial, pois HPL não crê em nada de destino regido pelo sobrenatural, uma vez que ele era um Materialista.





O retrato de HPL e seus pais é baseado nessa fotografia de quando ele tinha 2 anos.

"(...) o hábito de usar calças." — Ele continuou seguindo a "moda" e a vontade da mãe até os seis anos.

"Winfield Scott Lovecraft, um verdadeiro filho da Mãe Inglaterra nascido em Rochester, Nova Iorque." — Historicamente preciso: a maioria da família paterna de HPL permaneceu na área de Rochester, NY.


Página 12

As velhas começando a se reunir na frente da igreja católica de São João: essa cena precede a página 01.

"(...) muitas pessoas achavam que ele era inglês." — W.S. Lovecraft tinha um acentuado sotaque inglês e de fato era confundido com um britânico. Esse detalhe já havia sido mencionado por mim em edições anteriores.

"(...) um homem que entendeu a importância da tradição antiga." — Duplo sentido: tanto se refere à importância que WSL dava às suas origens britânicas quanto pode se referir às tradições da Stella Sapiente.

"Tenho a impressão que ele era um protégé do meu avô, pois do contrário não consigo conceber sua presumida apresentação à minha mãe." — De fato, nunca ficaram claras as circunstâncias em que os pais de HPL se conheceram. Numa vertente diversa desta apresentada por Moore, Kenneth W. Faig, em seu ensaio "Os Pais de Howard Phillips Lovecraft" sugere que os pais de Susan Phillips não aprovavam essa união.

"(...) alguma guilda de ofício dos seus dias de metalurgia, ou através da maçonaria." — WSL trabalhou como ferreiro/metalúrgico/ourives entre 1872 e 1873 em Rochester. As Guildas de Ofício eram entidades de representatividade de classes que viriam a ser substituídas por sindicatos. Sabe-se que Whipple Van Buren Phillips era maçom de alta graduação, mas não há evidências de que WSL também pertencesse à essa fraternidade.

"Então... hã... quando ele era vendedor, p-para onde ele viajou exatamente?" — WSL foi o que chamávamos aqui no Brasil de Caixeiro Viajante, trabalhando na maior parte do tempo como representante dos interesses da Ourives Gorham & Company, de 1889 a 1893, principalmente na região de Boston. Aqui Black começa a juntar as peças do quebra-cabeças.

"(...) seu comércio de ouro e prata o levou para mais longe." — Isso se liga à refinaria de ouro Boggs: lembrem que a Refinaria Boggs ficava em Salem, como visto em Providence 03. Suydam, em Providence 02, se refere a um certo sujeitinho inglês engraçado que vendia coisas para a Refinaria Boggs.

"(...) eu achei que algumas de minhas elaborações sobre suas noções poderiam se passar como sonhos. que, ao menos, é minha desculpa para 'Dagon'." — Segundo o próprio HPL, vários de seus contos e noveletas foram adaptados diretamente de sonhos que ele teve. Dagon foi um desses.


Página 13

"Você... parece ter uma relação próxima com os sonhos. Q-quase como se representassem um outro mundo para você." — Black ainda está "jogando verde" aqui. Neste ponto ele pode suspeitar, assim como ocultistas como Kenneth Grant e William Lumley, que HPL fosse um "adepto inconsciente" que recebia revelações ocultistas verdadeiras na forma de sonhos codificados.

"Eu lembro de regularmente encontrar grandes conjuntos de coisas negras, emborrachadas e sem rosto com asas de morcego e caudas farpadas. Eu os apelidei de "gárgulas da noite"." — HPL sonhou com esses seres pela primeira vez aos seis anos de idade, logo após a morte de sua avó materna.

"(...) as insidiosas cócegas quando eles me levavam." — Black experimentou isso em primeira mão como visto em Providence 08.

"As... histórias folclóricas que ele te contou." — Whipple Van Buren Phillips foi a principal figura masculina da vida de HPL depois da internação de seu pai, e costumava contar histórias para seu neto. "Meu avô viajara atentamente pela Itália, e me deleitou com longas narrativas em primeira mão de suas belezas e memoriais de grandeza ancestral." (Cartas Selecionadas, 1.300)


Página 14

"Ele narrava contos das coisas que os imigrantes pardos faziam nas matas (...)" — Isso evoca os ritos de "O Horror de Dunwich" e "O Chamado de Cthulhu", bem como os preconceitos de HPL em relação a imigrantes. Contudo, há uma "pegadinha" aqui, já que na trama de Providence há uma "explicação" para os preconceitos de HPL: há um fundo de verdade no seu temor pois Johnny Carcosa e sua mãe imigraram da "terra antiga", bem como os Boggs e seus parentes. Observem que algumas das mulheres que estão na entrada da igreja são "pardas".

"Ele disse que não fosse por certas fraternidades, presumivelmente se referindo à Maçonaria, o fim da humanidade seria demorado e ignobilmente mestiçado." — Isso implica que um dos objetivos da Stella Sapiente, entre outros, seria evitar ou se opor ao tipo de miscigenação representada pelos híbridos de Abissais que vimos em Salem na terceira edição.

Whipple Van Buren Phillips, pelo visto, também era dado a dores de cabeça e apoplexia. O que se diz dele ser um proeminente maçom e industrial da região é historicamente preciso. A imagem que Jacen Burrows faz dele é uma reprodução desse daguerreótipo (um tipo arcaico de fotografia).


Página 15

"Receio que olhos humanos mal possam conter a total estatura de tal indivíduo..." — Percebam como HPL idealiza seu avô, assim como Poe o fez antes dele. A ironia, naturalmente, está em HPL não conhecer a real extensão dos poderes e influência de seu avô.

"Van... Van Buren?" — Black já ouviu o nome, ou ligeiras variantes dele, várias vezes até aqui.

Rathbun era o nome da família da avó materna de HPL, precisamente de sua bisavó.

"(...) da influenza que assolou Providence há quase doze meses..." — A Gripe Espanhola fez seus estragos na região de Providence no fim de 1918.

"Fossem nossas posições invertidas, eu sem dúvida voltaria a Providence." — Isso é quase uma premonição do que viria a acontecer anos mais tarde, quando HPL voltou a Providence depois de uma temporada em Nova Iorque, onde ele não se adaptou à cidade e onde ele teve dificuldades para lidar com um casamento com uma mulher tão diferente dele.

"Tua visita, suspeito, pode ter moldado o Vovô Teobaldo no autor que ele estava destinado a ser." — Ironicamente preciso dados os eventos de Providence até este momento: o livro de banalidades de Black dando a HPL as sementes de muitas de suas mais famosas histórias.


Página 16

Nesta e na próxima página, enquanto desvairadamente vaga para seu quarto de pensão, Black vai sendo assombrado por várias "falas" que ele deixou de dar a devida atenção e não soube conectá-las no momento certo. A seguir vou apenas indicar as edições às quais cada fala pertencem. E antes que eu me esqueça, o gato preto desta edição está no painel 3.

  • "por quarenta anos os vendedores...": Providence #2.
  •  "sabe, os estrelas sabidas...": Providence #3
  •  "sabe, essa sociedade a que pertenci...": Providence #4
Página 17
  • "na stória do redentô...": Providence #4
  •  "ele esteve aqui com seus amigos": Providence #5
  •  "hum, esse é buren...": Providence #7
  •  "o homem do, hum, do lado dele...": Providence #7
  •  "é o, hum, mundo dos sonhos...": Providence #7
  •  "em 1889 houve um casamento arranjado...": Providence #9
  •  "tudo perfeitamente consensual...":  Providence #9
  • "felizmente eles deram cria quase que imediatamente...": Providence #9
Página 18

Como foi mencionado antes, a vista aqui dá para o campanário da igreja católica de São João. Fica evidente que a carta está endereçada para Tom Malone, que vimos na segunda edição.

"No seu campanário tem o que acho que é um meteorito, tirado dos arredores de Manchester (...)" — Ele está falando do Trapezoedro Brilhante, do qual ouviu falar pela primeira vez em Providence #5 e o viu propriamente em Providence #9.

"Na orla de Salem tem pessoas que acho que não são pessoas. O FBI provavelmente deve saber delas também." — O povo de Salem que vimos em Providence #3. Isso ecoa a invasão de Innsmouth pelas autoridades federais em "A Sombra Sobre Innsmouth", como depois ficou subentendido em O Pátio e Neonomicon.

"E Suydam em Red Hook. Há algo acontecendo sob a casa dele. Não tenho certeza, mas pode envolver crianças." — Um presságio de "Horror em Red Hook" e uma referência a Providence #2.


Página 19

Olha o Trapezoedro Brilhante aparecendo em cima da mesa, à direita de Black! E o campanário está quase "dentro" do quarto de Black!


Página 20

Os "corpos múltiplos" de Black, caindo, relembram a experiência de dilação temporal ao ler o Alfarrábio de Hali em Providence #6.

Temos aqui a primeira aparição de Johnny Carcosa, visto pela última vez em Neonomicon. Sua aparição lembra a aparência de humanos normais vistos a partir do Platô de Leng no fim de Neonomicon 04. Ele aparenta ser um ser bidimensional, estendendo-se pelo tempo como se fosse uma terceira dimensão. Isso se coaduna com ele se tornar parte de um desenho a giz em Neonomicon, e com a sua natureza intrínseca de personagem de quadrinhos.

A porra daquele olho em cima da visualização em "duas dimensões + tempo" de Carcosa provavelmente é uma referência ao "Olho Ardente Trilobulado" (essa foi a tradução da Ed. Iluminuras). Eu traduzi isso de outra forma. O comentarista Phil Smith, do Facts in the Case of Alan Moore's Providence, aponta que ele lembra o velho "olho na pirâmide", cujo nome formal é "O Olho da Providência".

Ainda sobre Johnny Carcosa, como vocês já devem ter notado, ele continua com suas dificuldades de dicção. Provavelmente por sua boca parecer um cu. Diferentemente da tradução da Panini, onde Carcosa troca as letras "r" por "g", aqui pretendemos chegar mais próximo do original, em que Carcosa tem dificuldades na pronúncia do "s" e do "z" (trocando por "sh" ou "j" dependendo da sonoridade, e "zz", respectivamente).


Página 21

O que se depreende daqui? Black serviu ao seu propósito: entregar ideias a HPL. As entidades dos Mitos foram descritas no Alfarrábio de Hali. Isso de alguma forma os criou? As ações e omissões de Black causaram uma renovação de algum tipo de ciclo? "Agora é antes" repete o que a mãe de Carcosa disse na primeira página.

Percebam que Carcosa, a partir do terceiro painel, começa a aparecer em uma tridimensionalidade convencional, como se estivesse se adaptando a esta realidade.

"Agora é o tempo do feshtival." — Rememorando a fala de Japheth Colwen sobre o "Festival", o qual ele disse que acabou de passar, mas dada a fala de Carcosa talvez ainda esteja ocorrendo... ou sempre ocorrendo, afinal de contas tempo e espaço são um só, e o espaço está fugindo dos pés de Black pra valer nesse momento.


Página 22

Puxando do fim da página anterior e o começo dessa, "Rejubile-se... e fale... e diga alto... que o Redentor vive.": Isso ecoa a passagem do Antigo Testamento, mais precisamente Jó, 19: 25 — "Pois eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra."

Carcosa está usando o que seria uma vestimenta apropriada para as "baladas" da época: Smoking noturno, black tie, luvas e polainas. Curioso é que eu já havia suspeitado que há alguma ligação entre Jonathan "Lily" Russell e Johnny Carcosa. Na primeira edição vemos Lily usar vestimentas similares. Também é na primeira edição que Lily presenteia (embora isso tenha acontecido antes dos eventos mostrados naquela edição) Black com o livro de banalidades, que Black preencheria com os embriões das histórias que alimentariam os contos de HPL... justamente o que Carcosa e seus mestres esperavam que Black fizesse.

"Eu shou um shubconjunto de sheus númerosh." — Isso implica que Carcosa é uma porção de um todo muito maior; se o Aklo é um sistema numérico tanto quanto um alfabeto, assim como o hebraico, isso implicaria que Carcosa é uma porção menor do texto.

"Eu shou o shishtema pelo qual ele she comunica. Eu shou shua vozz." — Carcosa é o meio pelo qual (presumivelmente Nyarlathotep, mas é possível que seja algo mais, como Azathoth) ele se comunica com entidades humanas.

Reforçando o que eu havia notado antes, a parte de baixo de Carcosa ainda está em "duas dimensões + tempo", enquanto sua mão já aparece tridimensional, com senso de profundidade.


Página 23

Um detalhe que parece meio óbvio, mas que passou batido por mim na primeira leitura, é que quando Black está de olhos fechados vemos que Carcosa não está lá, nem o interior do campanário, sugerindo que isso só está acontecendo em sua mente.

"Poish negro é o menshageiro. E negro é o sheu deshtino." — Vocês lembram dos trechos do Alfarrábio de Hali, que Black leu na Faculdade São Anselmo, lá em Manchester, né?

Aqui, a partir do terceiro painel, Carcosa já não exibe mais o "efeito Leng", aparecendo totalmente tridimensional.

"Por favor, shenhor black, shente-she." — O ato que Carcosa planeja realizar com Black provavelmente seria mais fácil com Black sentado.

"Voshê reshtituiu noshas hishtóriash para Providenshe. Voshê troushe ash boash novash ao nosho shalvador e redentor." — Mais uma vez, Providence aqui pode ser considerado como: 1) A cidade; 2) O conceito de "Providência"; e 3) Esta História em Quadrinhos. Há muitas passagens bíblicas cujos versos usam a expressão "boas novas", a maioria delas tendo a ver com a chegada do salvador cristão, Jesus, no Novo Testamento.


Página 24

"Shua shignificânshia jazz em shuprir o Redentor com ash coijash que ele preshija para reshtaurar o mundo ao sheu eshtado anterior." — Implica que as ações de HPL como o Redentor irão "resetar" o mundo de alguma forma, fechando e reiniciando um ciclo, ecoando as palavras chaves desta edição, "agora é antes".

"... e shua eshpéshie inshishtirá que elash shão reaish." — Isso implica que as criações de HPL conquistarão a realidade porque as pessoas acreditarão nelas. É em grande parte uma variação do conceito de Joseph Campbell em O Poder do Mito, em que o autor argumenta que uma divindade só existe enquanto alguém acredita nela. Claro, Moore aqui está mais uma vez brincando com os limites entre a realidade e a ficção.

"Ficshão não é o que voshê acha que é. E há um proshesho conheshido como Pósh-Sheleshão que voshê ainda não compreende." — Essa deu trabalho... "Pós-Seleção" é um aspecto da Teoria da Probabilidade, onde um evento é selecionado de acordo com condições de probabilidade. A aplicação prática disso é que Black é necessário para garantir que HPL escreva as histórias que ele precisa escrever. Isso é similar ao Princípio Antrópico Forte, uma teoria que Moore usou largamente em outras obras, notavelmente em The Moon & Serpent Grand Egyptian Theatre of Marvels, uma espécie de "coletivo" de magia do qual participam vários ocultistas, entre eles o próprio Moore.

"... e Ambroje agora eshtá conoshco." — Ambrose Bierce desapareceu em uma viagem ao México no ano de 1913.


Página 25

"Não. Não é eshe o cajo. Eshtou dijendo que ao nomear coijas shem forma, she conshede a elash identidade." — Isso é meio complicado de explicar em poucas palavras... Na prática mágica existe uma coisa chamada "Doutrina dos Nomes" que, resumidamente, declara que conceder nomes às coisas dá poder ao nomeador e, em última análise, pode-se conjurar coisas que existem (até mesmo coisas que não existem) apenas nomeando-as ou conhecendo seus nomes. Nessa fala de Carcosa o que ele quer dizer, de forma sutil, é que eles foram criados pelo poder da palavra.

"Biershe me moldou. Eshta pedra é uma abshtrashão da criashão dele, Hashtur..." — Bierce, segundo os comentaristas do Facts in the Case of Alan Moore's Providence, criou o nome Hastur em "Haïta the Shepherd", o que depois HPL e outros adaptaram nos Mitos de Cthulhu. Na verdade, creio que a origem etimológica do termo Hastur vem de muito mais tempo atrás... trataria-se de uma corruptela do nome "Astarte", um deus do panteão fenício que, por sua vez, deriva de uma divindade suméria. Eu até poderia falar mais sobre isso mas tenho que seguir adiante.

"E o Redentor conshederá nomesh por todas ash partesh." — Tecnicamente HPL não inventou todos os nomes: ele os "pegou emprestados" de outros autores como Bierce, Chambers, Arthur Machen, Robert E. Howard, Clark Ashton Smith, Frank Belknap Long, August Derleth...

"E eshte mundo sherá Yuggoth; e shempre terá shido Yuggoth." — De novo, uma sugestão de que as criações de HPL criam as condições que elas precisam para serem criadas. Sim, releia isto umas mil vezes se você não entendeu de primeira. O conceito é duro de ser verdadeiramente compreendido.

"Não. Voshês shão shonhosh que eshtamosh eshperimentando. Voshês shão parte de nósh." — Isso ecoa o clássico "dilema da borboleta" de Chuang-Tzu, onde ele não tem certeza se ele é uma borboleta sonhando que é um homem ou se é um homem sonhando que é uma borboleta. Black estava pensando que a humanidade estaria criando as entidades dos Mitos de Cthulhu, mas na verdade, pelo que Carcosa diz, a coisa é mais profunda... Carcosa sugere que são eles que sonharam a existência dos humanos para que estes criem as entidades mitológicas; Essa "auto-criação" remonta a um importante aspecto do Deus judaico/cristão. Lembrem também que o próprio Cthulhu é "aquele que sonha a própria existência enquanto jaz adormecido em R'Lyeh".

"Voshê shodomijou aquele rapazz aqui porque a pedra abshorve a energia azzul da relashão shecshual." — Black sodomizou Howard Charles em Providence #9. A tal energia azul é orgônio, como já havia sido mencionado em Neonomicon, e por mim antes em Providence.

"Nada eshtá errado. O universho não she importa. Ishto não é punishão mash, do contrário, uma valorijashão." — Um dos conceitos  centrais de HPL era que o universo é materialista e amoral, sem nenhuma recompensa ou punição sobrenatural.

"Eu vim para recompenshar shua empreitada. Veja, shou eu que devo me rebaixar. Eu que devo me ajoelhar diante de ti..." — E, como dizem os antigos, "ajoelhou, tem que rezar".


Página 26

Volta o "efeito Leng".

"Khālid Ibn Yazzīd é no prejente um lago de gásh fluoreshente perto de uma eshtrela em Taurush." — Isso vem para explicar a confusão de Hali ser uma "pessoa" em Um Habitante de Carcosa, de Ambrose Bierce, e um lago em O Rei de Amarelo, de Robert Chambers. Ambos estão corretos, pois Hali foi transformado por recompensa aos seus serviços.


Página 27

"Isho não pode sher anteshipado, ou mudado, e é shempre o meshmo." — Assim como palavras em um livro.

"Shempre eshte inshtante. Shempre eshte quarto. Shempre ishto aconteshendo, sem parar." — Isso lembra um trecho de The Moon And Serpent Grand Egyptian Theatre of Marvels, que vou traduzir aqui:
There is something happening. (Há algo acontecendo)
There is only one moment. (Há um único momento)
There is only one room. (Há um único quarto)
There is one person here. (Há uma pessoa aqui)
I love you. (Eu te amo)
Finalmente a cena onde a máscara de Carcosa se afasta e vemos seu cu sua boca. Fica bem subentendido que a "recompensa" apropriada para Black é ganhar um "cuquete" (sim, eu acabei de inventar uma mistura de cu com boquete).


Página 29 - Livro de Banalidades

"(...) ou caminhando pelas ruas ancestrais que ele claramente tanto ama." — Refere-se a como HPL gostava de caminhar frequentemente por Providence, inclusive levando convidados em longas caminhadas.

Poiquilotermia é a característica de "sangue-frio" em répteis, peixes e anfíbios.


Página 30

"(...) um enorme autodidata (...)" — HPL não chegou a completar o que chamaríamos aqui de Nível Médio devido a sua saúde frágil e a um colapso mental quando era adolescente, fracassando assim em conseguir ir para a faculdade. Desta forma, observa-se que ele realmente educou a si mesmo.

"Seu conhecimento de astronomia (...)" — HPL era um ávido astrônomo amador desde os seus doze anos, e até mesmo escreveu artigos sobre o assunto em sua adolescência.

"(...) a estrela que explodiu nas proximidades de Algol (...)" — Verdade. Trata-se de uma supernova chamada Nova Persei descoberta por um clérigo escocês de Edimburgo, Thomas David Anderson, em 21 de Fevereiro de 1901.
De H.G. Wells, Edgar Allan Poe, Alexander Pope e John Dryden já falamos em outras edições.


Página 31

"(...) uma presença Romana nos primórdios da América (...)" — De fato, existem múltiplas teorias sobre isso, mas nenhuma delas goza de respaldo científico.

"A Nau Branca" é um conto de HPL. Falei dele em outras ocasiões.


Página 32

Milwaulkee é a capital do estado do Wisconsin, cidade natal de Robert Black. Black não se dá conta no momento, mas "Jonathan" é o nome de seu amante (também conhecido como "Lily") que cometeu suicídio em Providence 01.


Página 33

Tom Sawyer e Huckleberry Finn são personagens fictícios de romances (excelentes, por sinal) de Mark Twain.

"(...) incidentes de choques nervosos que foram reportados em jovens soldados voltando da guerra (...)" — Talvez a tradução mais apropriada para o que eu traduzi como "choques nervosos" fosse "traumas pós guerra", mas quis manter o estilo do linguajar empregado por Black. Hoje em dia esse tipo de transtorno é mais conhecido como Desordem ou Transtorno de Estresse Pós-traumático, TEPT na sigla em português.


Página 34

A Caixa de Pandora é um antigo mito grego, onde Pandora recebe uma caixa e lhe é dito para não abri-la. Porém, vencida pela curiosidade, ela a abre, deixando o mal sair para o mundo. De certa forma, há uma similaridade entre a situação de Pandora e Black.

Sobre Marblehead falamos exaustivamente em Providence 03 e 04


Página 35

Também já falamos de Bram Stoker e seu livro inovador (porém chato na minha opinião), Drácula.

"(...) espero que possa evitar apelativos talismãs e fraquezas convenientes (...) — Como crucifixos contra vampiros. HPL geralmente evitava esse tipo de coisa, embora ele tenha feito algo nesse sentido em A Sombra Sobre Innsmouth, criando o Símbolo dos Grandes Antigos (Elder Sign, no original).


Página 36

"(...) no mundo dos panfletos mimeografados ao qual meus novos amigos me apresentaram." — Isso se refere ao jornalismo e à publicações literárias amadoras. Providence se passa antes do boom dos romances e publicações Pulp.


Página 37

"(...) ele deve escrever duas ou três epístolas por dia (...) & (...) ele tem um extraordinário escopo de correspondentes (...)" — Refere-se à fabulosa produção de correspondências de HPL. Estima-se que ele tenha escrito cerca de 80 mil (!) missivas em seus 47 anos de vida, de cartões postais a cartas de até 100 páginas. Pense num sujeito que gostava de escrever. Imagina se fosse hoje? Ele seria o cara mais chato do WhatsApp e do Facebook!!! Todo dia textos e mais textos, incluindo alguns textões!


Página 38

Falei bastante de Samuel Loveman e Ambrose Bierce em edições passadas.

Quaisquer dúvidas sobre Stella Sapiente ou o Livro de Hali, é só seguir meu conselho e reler as edições passadas com bastante atenção...


Página 39

"(...) tomo a poesia de Samuel Loveman. Tenho a sensação de que é um lugar onde eu poderia conhecer muitas almas gêmeas." — Isso se refere, mais uma vez, à coincidência de tanto Black quanto Loveman serem gays, judeus, e gostarem de literatura.


Página 40

"(...) meu olho tende a habitualmente buscar o distante pináculo da igreja de São João." — Ecoa um trecho de O Habitante das Trevas (The Haunter of the Dark, no original que já foi traduzido de outras formas) que aparece na contracapa: "De todos os distantes objetos na Federal Hill, uma certa imensa e sombria igreja mais que fascinou Blake. Ela se destacava com especial nitidez em certas horas do dia, e ao pôr do sol a grande torre e o depredado campanário assomavam em preto contra o céu flamejante.".

"(...) me fez crer, apenas momentaneamente, que eu tinha visto uma pessoa se movendo na torre (...)" — Vocês lembram da Sra. Carcosa em Providence 09, né?

Dagon é um conto (dos melhores: curto e eficiente) de HPL escrito em 1919.


Página 41

"Eu de certa forma não acredito que o modo de aventura na narrativa, com suas confortáveis restrições e convenções (intrépidos heróis triunfando definitivamente sobre algum adversário sem motivação ou alguma ameaça improvável), seja apropriado para a espécie de conto exótico que desejo contar." — Um sentimento que HPL compartilhava com respeito a algumas ficções mais sanguíneas de Robert E. Howard em Weird Tales, mas não abraçado por vários dos seus seguidores literários, que preferiam partir para uma exposição frontal dos Mitos, assim errando bastante em chegar ao ponto desejado.

"(...) eu entregá-lo a Howard em sua casa amanhã de manhã, na véspera de Natal." — Pronto: esse ato de entregar o presente livro de banalidades representa a culminação do trabalho de Black como o Arauto (Herald, em inglês, lembram?) para o Redentor. Em nada surpreende que isso deva acontecer em um dia tão associado com o nascimento do Redentor Cristão. O fato de isso acontecer na véspera de Natal não é nada insignificante. Em muitas tradições folclóricas, o dia imediatamente anterior a um grande feriado era tido como extremamente agourento, portador de maus presságios. Uma reminiscência disso está no Halloween ser na noite anterior ao Dia de Todos os Santos.


Página 42

Boa parte da carta é mostrada na sequência imediatamente anterior à entrada de Johnny Carcosa em cena. "Tom" é Tom Malone.

O trecho que começa com "Ah, Tom, queria tanto que nós (...)" até o fim da carta não foi visto antes, então foi, presumivelmente, escrito depois de seu encontro com Carcosa.


Contracapa

O período de 05 a 09 de Novembro de 1935 refere-se ao período durante o qual HPL escreveu O Habitante da Escuridão.

4 comentários:

Pablo Frade Oliveira disse...

Parabéns por essa excelente tradução!!! O conceito do tempo como uno só assustará quem não conheceu Dr Manhatham e não leu nenhuma das outras histórias do Moore, mas ainda não entendo o alcance completo dessa visão com yuggoth sendo a própria terra!! O quanto isso modifica a visão das obras de Lovecraft? Só relendo tudo com esse ponto de vista pra saber.

Skætos disse...

Então, Pablo...
Sobre essa coisa da Terra ser Yuggoth o que eu entendi foi que, se o tempo é como um poliedro que vemos apenas uma face de cada vez (como tentou explicar o Dr. Manhattan), então do ponto de vista dos humanos, Yuggoth é a Terra em algum momento do que nós chamaríamos de futuro. Mas para os "Antigos", que veem o tempo por completo como uma dimensão, Yuggoth já é a Terra: Agora é antes.

Marcio Roberto disse...

Isso é coisa de loooooouco!! Sério, falar de coisas que parecem incompreensíveis aos humanos sendo que um de nós mesmo foi quem as escreveu é algo que o Lovecraft fazia com maestria e o Moore tá fazendo o mesmo também, que história é essa... Triste porém que está no fim já e como eu já imaginava, as coisas não terminaram bem para o Black. Vale lembrar porém que lá na edição onde Malone faz sua estreia, já temos um vislumbre de que as coisas não iam acabar bem pra ele e que Black estava mexendo com algo que ia levá-lo à ruína, o próprio Tom afirmou que o livro que ele escrevera o mandara para o inferno e aquela mulher loira de Innsmouth já tinha dito pra ele voltar pra casa que era o melhor. Sobre esse lance de 4D realmente isso é confuso, eu acho que a quarta dimensão é o tempo ou a ausência dele, onde passado, presente e futuro simplesmente são uma coisa só, por isso que a policial em Neonomicon afirma "eles não são antigos, na verdade nem nasceram ainda" lá no fim de Neonomicon.

miguel rude disse...

na verdade ja existe "cunete"